O print do comprovante que chegou pelo WhatsApp às 23h48. A pergunta “isso foi feito por IA?” são três: uma tem resposta criptográfica, outra depende de uma chave que só o fabricante tem, e a terceira é um chute com taxa de erro publicada.
Gerada não é a mesma pergunta que editada. Uma foto real com um valor pintado por cima não é gerada por IA, e uma imagem gerada por IA que ninguém tocou depois não foi editada. Esta página trata da primeira. Para a segunda (EXIF, rastros do editor, carimbos de data, recodificação), veja como saber se uma imagem foi editada.
1. As três famílias, lado a lado
A coluna que decide tudo é a última: se um terceiro, você, seu fornecedor, qualquer um que não seja o dono do modelo, consegue de fato rodar a verificação.
| Família | Tipo de resposta | O que um resultado positivo prova | Um terceiro consegue rodar? |
|---|---|---|---|
| Credencial C2PA (Content Credentials) | Determinística: a assinatura confere ou não confere | Um signatário nomeado afirmou criptograficamente esse histórico sobre esses bytes | Sim. Especificação aberta, leitores em código aberto |
| Metadado de gerador, sem assinatura | Leitura determinística de uma afirmação não assinada | O arquivo contém uma declaração em primeira pessoa de como foi feito | Sim. É metadado comum |
| Marca d'água invisível | Determinística para quem tem a chave | O modelo de um fabricante específico produziu a imagem | Não. A detecção é trancada por chave; veja abaixo |
| Detector estatístico passivo | Probabilística: um escore com taxa de erro | Nada sozinho. Uma probabilidade, condicionada a o gerador ser um que o modelo já viu | Sim, e é justamente esse o problema |
2. Credencial C2PA: a verificação determinística
Conferir um manifesto não é estimativa. É uma declaração
assinada embutida no arquivo (no segmento APP11 (JUMBF) de um
JPEG, no bloco caBX de um PNG), dizendo quem produziu e o que foi
aplicado. Você resolve a cadeia de certificados contra uma lista de confiança
e a assinatura cobre os bytes que você tem em mãos ou não cobre. Dá para
testar em
contentcredentials.org/verify
ou com o c2patool.
O que um manifesto válido prova
Exatamente uma coisa: um signatário nomeado, cujo certificado encadeia até uma autoridade confiável, afirmou este histórico de produção sobre estes bytes. Um fato forte, e estreito.
O que um manifesto válido nunca prova
- Não prova autoria. O signatário é quem rodou o software de assinatura. Nem a credencial de um gerador nem a de um editor identificam a pessoa que decidiu o conteúdo.
- Não prova verdade. Uma foto assinada de um documento falso é uma credencial válida em volta de uma mentira.
- Não cobre o arquivo inteiro. O manifesto protege as faixas que ele diz proteger. Campos fora dessa região (parte dos metadados, às vezes a localização), viajam junto sem atestação.
E a ausência não prova absolutamente nada
Este é o achado mais mal utilizado da área. Remover uma credencial não é um ataque que exija perícia; é um comando:
Toda a camada cooperativa, removida
exiftool -all= -jumbf:all= imagem.jpg
E a maioria das credenciais some sem ninguém querer.
Um estudo medido sobre imagens coletadas no X constatou que a CDN da plataforma remove as credenciais de forma sistemática no upload. Arquivo sem credencial é a condição normal de quase toda imagem da internet, inclusive das honestas.
Por que conferir isso agora, e não em 2028
A oferta de imagens assinadas mudou de patamar em 2026, e o lado que lê não acompanhou. A lista de produtos conformes que o próprio programa C2PA publica, lida em 14 de agosto de 2026, traz 167 produtos:
- 147geradores conformes
- 20validadores conformes, nenhum um nome conhecido
- 58dos 167 certificados só em julho de 2026
A saída de imagem da OpenAI carrega C2PA junto de uma marca d'água SynthID; a
Anthropic passou a assinar .svg, .png e
.jpg gerados em 11 de agosto de 2026
(como o Claude marca conteúdo gerado por IA).
A regulação empurra na mesma direção. A China exige, desde 1º de setembro de 2025, um rótulo legível por máquina nos metadados do próprio arquivo. A lei californiana AB 853 vai além: a partir de 1º de janeiro de 2027, grandes plataformas terão de detectar dados de proveniência, mostrá-los ao usuário e não poderão removê-los. O argumento mais forte contra apostar em C2PA, “isso nunca sobrevive a um upload”, agora tem prazo de validade legislado.
Contagens da lista legível por máquina do programa de conformidade da C2PA, lida em 14 de agosto de 2026: 167 produtos em conformidade no total, 58 deles certificados só em julho de 2026.
3. Declarações em primeira pessoa, sem assinatura
Abaixo da camada criptográfica há uma mais barata: metadados em que a ferramenta que produziu o arquivo simplesmente conta o que fez. Determinística de ler, sem assinatura, forjável nos dois sentidos. Pista, nunca veredicto, e, quando presente, específica de um jeito que nenhum detector estatístico chega perto.
-
XMP
DigitalSourceType(IPTC). O valortrainedAlgorithmicMediaé a forma padrão de dizer “criado por um modelo generativo”;compositeWithTrainedAlgorithmicMediadiz a coisa mais parecida com fraude: uma imagem real aumentada por um modelo, que é exatamente o formato de pintar um valor por cima de um documento. O valor irmãoscreenCaptureé uma declaração legítima de print, que vale mostrar em vez de punir. -
Blocos de texto do PNG. O AUTOMATIC1111 usa um bloco
parameterscom prompt, prompt negativo, sampler, passos, CFG, seed e hash do modelo. O ComfyUI escreveprompt(grafo de execução) eworkflow(grafo da interface). InvokeAI, Fooocus e SwarmUI têm suas próprias chaves. -
EXIF
UserCommenteSoftware. As mesmas cargas na saída JPEG e WebP; os geradores se nomeiam do mesmo jeito que um editor faria.
O custo de evasão é zero: o ComfyUI suprime tudo com
--disable-metadata. Essas verificações encontram imagens que
se anunciaram, e nada além disso.
4. Marca d'água invisível: tecnologia real, detecção trancada
Marca d'água invisível é a melhor ideia deste campo, e você não consegue rodar o detector. O sinal fica nos próprios pixels, então, diferente do metadado. Sobrevive a print, redimensionamento e recompressão. O SynthID-Image é a maior implantação; desde maio de 2026 a OpenAI também o embute. Stable Signature, TrustMark e InvisMark são os outros esquemas com nome.
- O portal SynthID Detector continua em lista de espera. Não há API pública nem SDK, e o detector de imagem nunca foi aberto, só a versão para texto foi.
- A superfície de consumo do próprio Google é limitada: a documentação afirma que o Gemini hoje só reconhece conteúdo criado por ferramentas do Google, ou seja, mesmo depois de a OpenAI adotar o SynthID, o verificador do Google não confere as imagens dela.
- A restrição é deliberada. O artigo técnico do próprio DeepMind cita a limitação de consultas como defesa de primeira classe: controle de acesso é o modelo de segurança, por isso uma API pública de detecção pode nunca existir.
- Nem o Google nem a OpenAI aparecem no registro de soft bindings do C2PA, o único lugar interoperável onde um esquema pode ser implementado por terceiros. Adobe, Microsoft, Digimarc, Imatag e Steg.AI estão lá; os de maior alcance, não.
Marca d'água funciona, para o fabricante que a plantou. Se um serviço afirma conferir “marca d'água de IA” para você, pergunte qual esquema e com a chave de quem. E mesmo para quem tem a chave a garantia é de mão única: remover é barato, e forjar, fazer uma foto autêntica dar positivo, é o problema vivo de 2026.
5. Detectores "isso é IA?": probabilísticos, com taxa de erro publicada
Nada está sendo verificado; uma probabilidade está sendo estimada. São os modelos por trás de praticamente todo “detector de imagem por IA” gratuito. Os números de 2026, de fontes primárias, são o argumento.
- 18-31%de acurácia do melhor detector nos geradores de 2026
- 51,9%depois de um salvamento em JPEG, vindo de 99,9%
- 13,33%de imagens autênticas chamadas de IA por cinco ferramentas líderes
- 5,04%das falsas pegas, com 92,77% de “acurácia” de manchete
Os quatro resultados de 2026, um a um
- Um único salvamento em JPEG derruba tudo para cara ou coroa. No benchmark GenImage (arXiv:2306.08571, 2,68 milhões de imagens), um detector ResNet-50 que marca 99,9% em arquivo limpo cai para 51,9% depois de um único salvamento em JPEG qualidade 65. Toda foto de documento que passou por WhatsApp ou por app de digitalização já foi recomprimida ao menos uma vez.
- Eles chamam foto real de falsa. Um teste da NewsGuard com cinco ferramentas líderes (8 de maio de 2026, 45 imagens) encontrou imagens autênticas declaradas como IA em 13,33% dos casos, com taxas individuais de até 40%. Em fotos reais levemente editadas, três das cinco marcaram 80-93% como IA. Em 35 das 45, ao menos uma ferramenta discordou das outras.
- A “acurácia” de manchete esconde a divisão que importa. No benchmark Chameleon (arXiv:2406.19435), o método de ponta do próprio artigo relata 92,77% de acurácia geral enquanto pega 5,04% das imagens falsas; os demais pegam entre 0,01% e 3,25%. O número impressionante é desequilíbrio de classes somado a um acerto quase perfeito na classe “real”.
- Existe um caso estreito em que vão bem. Quando o gerador já está representado no treino, a detecção chega a cerca de 0,97 de ROC-AUC mesmo sob dezenas de degradações.
Degradação medida no GenImage (2,68 milhões de imagens); a divisão de acurácia vem do Chameleon. A citação é do autor do Synthbuster.
Um estudo de 2026 sobre prova visual em processos judiciais (arXiv:2606.07613) chegou ao mesmo lugar pelo lado do tribunal: acerto humano de 64,8% e no nível do acaso contra os geradores mais fortes, modelos multimodais com 5,9% de sensibilidade, e a recomendação de combinar revisão humana, triagem e credencial C2PA. Serve como triagem. Nunca como prova.
6. O que nada disso consegue dizer
- Sem credencial não significa feita por câmera. A ausência é o estado padrão da internet, produzida por ferramenta comum muito mais vezes do que por alguém escondendo algo.
- Uma marca válida não torna o conteúdo verdadeiro. A criptografia atesta o histórico do arquivo. Não diz nada sobre o salário do holerite ser real nem sobre a cena ter sido encenada.
- Gerada por IA não significa fraudulenta. Ampliação, troca de fundo, preenchimento generativo, desfoque de modo retrato: tudo comum. A pergunta que um processo antifraude precisa responder é se uma afirmação específica é falsa, e “um modelo tocou nesses pixels” não é essa pergunta.
- “Provavelmente IA” é uma probabilidade com taxa de erro publicada, não um fato. Quando um detector diz 87%, a leitura honesta é “87% sob a calibração deste modelo, em geradores que ele já viu, antes de qualquer recompressão”. Há casos publicados de 94,9 de AUC com 51,9% de acurácia sobre os mesmos dados.
Falta um limite, e é o que mais importa para documento. Classificadores de imagem inteira se apoiam em impressões estatísticas globais em vez de rastros locais de adulteração (arXiv:2602.00192), e por isso generalizam mal para imagens parcialmente editadas. Ninguém gera um holerite falso do zero; pinta o valor por cima: exatamente o caso em que um escore “isso é IA?” é estruturalmente pior.
7. Uma ordem de verificação que funciona
- Peça o arquivo original, não o print e não o encaminhado. Print de comprovante é a forma mais comum de destruir toda a evidência antes de ela chegar.
- Procure a credencial C2PA e confira, se houver. Presente e válida é o fato isolado mais forte disponível.
-
Leia as declarações não assinadas,
DigitalSourceType, blocos de parâmetros do PNG,UserComment,Software. - Confronte o histórico do arquivo com a história que ele conta : carimbos de data, rastros de editor, codificação. Essa é a faixa da imagem editada, e para fraude documental costuma ser a produtiva.
- Confirme a afirmação na fonte, fora do arquivo. O banco confirma a transferência; a SEFAZ confirma a nota. Nenhuma análise de imagem supera a fonte autoritativa.
- Trate qualquer escore de detector como ordenação de fila, se você usar algum. Nunca como motivo por si só.
O que o verificador da Tamperlens lê
É isto que o motor faz com as camadas acima, e é isto que ele não faz.
- Credencial C2PA: presença, reportada como presença. Em uma imagem avulsa o motor encontra o contêiner C2PA e reporta que ele está lá. Ele não analisa o manifesto e não verifica a cadeia de assinatura, então não afirma nada sobre o que a credencial diz nem sobre ela ser válida: reportar “proveniência assinada” sem conferir a assinatura seria exatamente a falha que este produto existe para criticar.
-
Metadado de gerador: lido como declaração em primeira pessoa.
Geradores nomeados em
Software, XMP e blocos de texto do PNG;parametersdo AUTOMATIC1111;prompteworkflowdo ComfyUI; chaves do InvokeAI; os valores IPTC acima. Um bloco de parâmetros de geração é declaração de origem sintética, não inferência, por isso é a única família de imagem que chega à severidade alta. - Nenhum classificador de IA e nenhuma leitura de marca d'água. Sem modelo de “isso é IA?”, sem probabilidade, pelas razões da seção 5, e sem conferir SynthID, porque ninguém fora do fabricante consegue.
O motor lê estruturas que o codificador escreveu; não decodifica pixel algum e não chama serviço de terceiros. Os arquivos são lidos em memória, nunca gravados em disco.
Leia o passo 3 numa foto de verdade
Abra a foto de exemplo e o leitor abre o EXIF, o XMP e os blocos de texto do PNG dela, as declarações em primeira pessoa da seção 3, num arquivo que você não precisou fornecer. Sem conta, sem upload. Sua própria imagem entra no mesmo leitor: o arquivo é enviado por HTTPS, processado em memória e nunca gravado em disco, num servidor em Helsinque, na Finlândia (privacidade).
A Tamperlens reporta sinais de risco, não veredictos de autenticidade. Sinais podem ter causas legítimas; combine-os com a sua própria lógica de decisão.
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- Ver metadados de um arquivo Leia EXIF, XMP e blocos de texto do PNG de qualquer arquivo no navegador, sem conta.
- Comprovante PIX falso: o que o arquivo mostra Por que a confirmação no banco é a verificação confiável e a estrutura do arquivo é a segunda opinião.